Arquivo de entrevistas
Chat com Caco Barcellos
(4/7/2003)


Moderador 16:00:59
Caco Barcellos
O jornalista Caco Barcellos lançou recentemente Abusado, livro-reportagem sobre a ocupação do Morro Santa Marta, no bairro carioca de Botafogo, pelo Comando Vermelho, facção criminosa mais importante do Estado. O personagem principal da obra é Juliano VP, codinome de um traficante do Rio de Janeiro que se tornou chefe do Santa Marta. O criminoso apreciava literatura e se preocupava com o destino da comunidade. Seu gosto literário repercutiu de forma negativa entre os integrantes do Comando Vermelho que o julgavam um "doidão" que matava pouco. No livro, o autor esclarece as denúncias de que VP recebia uma mesada do cineasta e publicitário João Moreira Salles para largar o crime e relata a luta diária dos moradores da favela preocupados com a qualidade de vida.


Moderador 16:01:11
Vida de repórter - Desde o ano passado, Caco Barcellos vive em Londres como correspondente da Rede Globo. Funcionário há 18 anos da emissora carioca, ele integrou a equipe de reportagem do Jornal Nacional, Fantástico e Globo Repórter. Antes, trabalhou nas revistas Repórter, IstoÉ e Veja. O primeiro livro do gaúcho foi A revolução das crianças, escrito a partir de uma reportagem sobre a Revolução Sandinista. Barcellos é também autor de Rota 66 - A História da Polícia que Mata. (Sheila Silva/Redação Terra)


Moderador 17:01:11
Vagner diz: A criminalidade vista de perto é menos assustadora do que as notícias que chegam pelos meios de comunicação? Dá para dizer que hoje existe crime organizado no Brasil? Ou são pequenos grupos que, somados, se impõe pela força?


Moderador 17:01:35
Pedro, de Porto Alegre (RS), diz: Você teme represálias contra sua pessoa e família?


Caco Barcellos 17:03:03
Vagner, eu acho que o crime organizado é bastante desorganizado, no caso dos traficantes de drogas do Rio de Janeiro principalmente. O que explica a força deles é a violência, os crimes com atrocidades.


Moderador 17:03:25
Milise, de Porto Alegre (RS), diz: Gostaria de saber se "Abusado" tem alguma semelhança com "Rota 66". Quando teve a idéia de escrever o novo livro?


Moderador 17:04:10
Thea Tavares, de Curitiba (PR), diz: Olá, Caco! O que é fundamental ao exercício do jornalismo investigativo especialmente no Brasil?


Caco Barcellos 17:05:28
Pedro, espero que o conteúdo do meu livro seja entendido como uma contribuição para as pessoas fazerem melhor juízo sobre a realidade dos traficantes. Eu acho que as pessoas só conhecem o lado criminoso da vida deles... Não creio que mostrar o outro lado da vida deles possa me trazer muitos problemas.


Caco Barcellos 17:07:14
Milise, talvez a maior semelhança esteja na forma de escrevê-lo. Os dois são reportagens escritas na forma de romance. A idéia de conhecer por dentro como funciona uma quadrilha de traficantes, eu tive logo depois de ter acabado a investigação do "Rota 66".


Moderador 17:07:33
Renato Moura, de São Paulo (SP), diz: Você acha ético divulgar uma entrevista sem a autorização do entrevistado? Como saber até onde vai a ética jornalística?


Caco Barcellos 17:08:24
Thea, fundamental pra mim é focar a nossa atividade nos assuntos que sejam de interesse da maioria da população brasileira, das pessoas pobres portanto.


Moderador 17:08:35

Carlos, de Belo Horizonte (MG), diz: Você teve algum receio ao começar este livro? Como convenceu Juliano VP a auxiliá-lo? (Divulgação)


Caco Barcellos 17:10:31
Renato Moura, depende das circunstâncias em que a entrevista foi feita. Com relação às vítimas de um crime, a vontade dela tem de ser soberana. Do criminoso, nem sempre.


Moderador 17:11:00
Ivan, de São Pedro (SP), diz: Que reportagem mais marcou sua vida?


Moderador 17:11:17
Magalhães diz: A corrupção policial é o maior entrave para que haja um combate efetivo à criminalidade?


Caco Barcellos 17:11:47
Carlos, tive receio, sim. Eu temia que a notoriedade trazida pelo livro pudesse levar à morte dos personagens.


Caco Barcellos 17:12:32
Ivan, sinceramente não sei qual mais me marcou. Eu me envolvo sempre e de forma radical nas minhas reportagens.


Moderador 17:12:46
Daniela Romaneli, de Londrina (PR), diz: Caco, o cargo de correspondente em Londres não atrapalhou o processo de investigação, já que muitos acontecimentos do livro ocorreram durante esse período?


Moderador 17:13:37
Enzo, de Ivoti (RS), diz: Os moradores do Rio de Janeiro temem mais os policiais do que os traficantes. Como acabar com isso?


Caco Barcellos 17:13:41
Magalhaes, não acho, não. A corrupção é um componente que ajuda explicar a violência fora de controle. Mas o maior entrave é a desigualdade social, salário baixo para a maioria da população, por exemplo.


Moderador 17:13:56
Adriano, de Marília (SP), diz: Qual sua opinião sobre o avanço do poder de Bush e Blair?


Caco Barcellos 17:15:41
Daniela, atrapalhou, sim. Mas a maior parte da apuração eu já tinha feito antes de sair do Brasil. As atualizações, eu fiz por telefone e por meio da contratação, como free lancer, de duas repórteres maravilhosas aí do Brasil, Sonia Oliveira Pinto, do Rio, e Andrea Wellbaum, de São Paulo.


Moderador 17:15:51
Vid@a diz: O que achou da hostilidade dos criminosos paraenses quando esteve aqui?


Caco Barcellos 17:17:07
Enzo, eu acho que eles temem os dois lados... quando a sociedade conseguir levar os direitos da cidadania para os morros, teremos dado um primeiro passo.


Moderador 17:17:43
Rogerio diz: Como conciliar a missão de repórter da Globo e a total disposição para informar a verdade?


Caco Barcellos 17:17:55
Adriano, sinais dos tempos... o mundo assiste preocupado.


Moderador 17:19:17
Luciano Pescador diz: Caco, tudo bem? Quem está mais informado: a imprensa ou a polícia?


Caco Barcellos 17:19:17
Vid@a, como assim? Eu não sofri nenhum hostilidade quando estive no Pará. Pelo contrário, no dia do lancamento do livro, havia uma multidão de pessoas muito carinhosas comigo.


Caco Barcellos 17:20:31
Simples, eu me orgulho de todas as reportagens que fiz até hoje na TV.


Moderador 17:21:00
taiane diz: Caco, sou jornalista. A escolha da minha profissão foi feita após a leitura de "Rota 66". Gostaria de saber se algum parente das vítimas mencionadas no livro o procurou após você o ter publicado.


Caco Barcellos 17:21:27
Luciano, acho que os dois lados, polícia e imprensa, precisam se informar muito mais e com mais seriedade sobre o universo da criminalidade.


Caco Barcellos 17:22:53
Taiane, sim, muitos me procuraram. A família dos jovens do caso específico do "Rota 66" me deu um retorno que me deixou muito feliz.


Moderador 17:22:56
leonardo diz: Olá, Caco. Todo ex-ministro da Justiça diz que há solução para a criminalidade, mas por que não conseguem solucionar enquanto estão no poder?


Moderador 17:23:34
Eliani diz: Gostaria de saber como é a rotina de um correspondente.


Caco Barcellos 17:24:15
Leonardo, eu acho que a solução não depende apenas do ministro da Justiça... O processo tem de envolver toda a sociedade e, a gente não deve se iludir, é de longo prazo.


Moderador 17:24:20
Eduardo diz: Qual sua opinião sobre o dinheiro que os Estados estão gastando com Fernandinho Beira-Mar?


Moderador 17:25:15
Tiago diz: Olá, Caco. Você acha que "Abusado" pode mostrar apenas o lado ruim do Rio de Janeiro, como fez "Cidade de Deus"?


Caco Barcellos 17:25:32
Eliane, todo o correspondente é refém dos acontecimentos... Fundamentalmente precisamos ficar ligados nas notícias durante as 24 horas e estar pronto para correr atrás delas.


Moderador 17:26:15
Rogerio diz: Há muito ciúme entre seus colegas? Como você reage?


Moderador 17:26:58
Maikio diz: Sua saída do Brasil tem algo a ver com ameaças?


Caco Barcellos 17:26:59
Eduardo, Fernandinho Beira-Mar é um dos raros traficantes que conseguiram montar uma estrutura atacadista de distribuição de drogas. Ele realmente precisa ser combatido de forma diferenciada, vale o investimento.


Moderador 17:29:06
Audálio diz: Caco, gostaria que falasse um pouco do início de sua carreira. Que dificuldades enfrentou? Parabéns pelo trabalho!


Caco Barcellos 17:29:16
Tiago, o leitor deve julgar. Minha preocupação foi a de contar a realidade, a intimidade de uma organização que eu acho que ainda é pouco conhecida.


Moderador 17:29:53
Rodrigues diz: Qual era a sua ligação com Tim Lopes e como recebeu o que aconteceu com ele? É um risco inerente à profissão?


Caco Barcellos 17:30:06
Rogério, eu trabalho tanto, mas tanto, mais de 14 horas por dia, que não consigo tempo para pensar nessas coisas.


Caco Barcellos 17:30:56
Maikio, minha saída do Brasil não tem nenhuma relação com ameaça.


Moderador 17:31:37
Spider diz: Houve alguma entrevista que você não conseguiu fazer por estar muito emocionado?


Caco Barcellos 17:32:16
Audálio, comecei por acaso na profissão. Fazia faculdade de matemática, trabalhava como motorista de táxi e um dia fui convidado para fazer um jornal do centro acadêmico da faculdade. Foi assim.


Caco Barcellos 17:32:48
Ainda para o Tiago, obrigado por dar importância ao meu trabalho.


Moderador 17:32:50
Marie diz: A polícia atrapalhou, de alguma forma, sua pesquisa para o livro?


Caco Barcellos 17:33:57
Rodrigues, Tim Lopes era um grande amigo, colega contemporâneo, começamos na mesma época que o País estava sob a ditadura miliitar e trabalhamos muito na imprensa alternativa, que era de oposição ao regime. Estamos em uma guerra civil permanente e não declarada... Os repórteres também são vítimas de guerra.


Moderador 17:34:52
esmaile diz: A desigualdade social é a origem de todo mal?


Caco Barcellos 17:36:07
Spider, temporariamente, sim... Mas, depois de me recuperar do trauma, costumo seguir em frente. Um dos meus defeitos é a persistência.


Moderador 17:36:22
Maikio diz: Você escreveu um livro sobre a guerra na Nicarágua. Pode falar um pouco sobre essa experiência?


Moderador 17:38:05
belinha sp diz: Como a violência brasileira é vista no exterior?


Caco Barcellos 17:38:12
Marie, involuntariamente sim. A maioria dos traficantes tem vida clandestina e, por isso, eu precisava falar com eles às escondidas. Isso dificultou muito a apuraçao, mas a polícia nunca fez nada para impedir o meu trabalho.


Caco Barcellos 17:39:21
Esmaile, no caso da violência, evidentemente as causas são variadas e complexas... Mas a principal delas, sem dúvida, é desigualdade social.


Moderador 17:39:45
Tato diz: Caco, quais as coisas boas que acontecem no Santa Marta?

Continua