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| Arquivo de entrevistas |
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Chat com Carla Gallo (22/9/2008)

| Moderador 13:37:11
| | Carla Gallo O Aborto dos Outros, da cineasta Carla Gallo, é um documentário que percorre situações de abortos realizados em hospitais públicos - previstos em lei ou autorizados judicialmente - e situações de abortos clandestinos. Premiado com Menção Honrosa no Festival É Tudo Verdade 2008, o filme fala da maternidade, afetividade, intolerância e solidão; e também expõe os efeitos perversos da criminalização para as mulheres, apontando a necessidade de revisão da lei brasileira. Neste bate-papo, Carla fala do filme O Aborto dos Outros e comenta os dados sobre o aborto, que mostram que 70 mil mulheres morrem por ano no mundo em função de aborto inseguro. E no Brasil, uma em cada quatro gestações é interrompida voluntariamente, totalizando mais de um milhão de abortos clandestinos por ano. |

| Moderador 13:37:26
| | Depois de três anos de pesquisas, a diretora Carla Gallo reuniu uma equipe para documentar, durante cinco meses, o drama de inúmeras mulheres que estavam prestes a interromper sua gravidez. Estreante na direção de longas-metragens, ela registrou histórias de casos de estupro e risco de vida para a mãe, únicas situações em que o aborto é permitido pelo Código Penal brasileiro. Além disso, o documentário também traz depoimentos de mulheres que recorreram ao aborto clandestino, além de profissionais da área da saúde, em diferentes locais em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Nascida em 1973, em São Paulo, a Carla Gallo é formada pela Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP). Antes de O Aborto dos Outros, ela dirigiu diversos documentários de média duração: Ruas (2007), Na Trilha de São Miguel (2006), Giramundo - Teatro de Bonecos (2004), Hijab - Além do Véu (2002) e Tom Zé ou Quem Irá Colocar uma Dinamite na Cabeça do Século? (2000). |

| Moderador 16:01:31
| | Isabela diz: Como surgiu a idéia de fazer um longa-metragem sobre o aborto? |

| Moderador 16:01:51
| | Camila diz: Como foi o processo de desenvolvimento do roteiro? |

| Moderador 16:02:04
| | Thais diz: O documentário fala de um tema delicado para a sociedade brasileira. A discussão sobre a legalização do aborto está cada vez mais em pauta. O Aborto dos Outros assume uma posição? Qual é? É a sua posição? |

| Moderador 16:02:18
| | Sérgio diz: Como você conseguiu encontrar as personagens? Esse processo foi difícil? |

| Carla Gallo 16:02:47
| | Isabela, a minha mãe, quando engravidou de mim, tinha 20 anos. Ela era de uma família pobre e não era casada. Mas o aborto foi uma possibilidade. Eu cresci sabendo dessa questão. |

| Carla Gallo 16:03:55
| | Camila, eu fiquei três anos fazendo a pesquisa sobre o aborto em hospitais públicos que realizam o aborto legal. Aqui no Brasil, o aborto é permitido de casos de estupro e risco de vida para a mãe. |

| Moderador 16:04:04
| | Edson diz: Li uma declaração sua dizendo que chorou durante toda a filmagem. Qual foi o momento mais difícil? |

| Moderador 16:04:36
| | Juliana diz: Você pensou em desistir do longa em algum momento? |

| Moderador 16:06:12
| | Dri diz: A crítica tem tido que você consegue fugir do julgamento moral e ético. Como você conseguiu isso? |

| Carla Gallo 16:07:05
| | Thais, sim, o filme tem uma posição definida e eu também. Eu acredito na legalização como uma forma de equacionar essa questão. Eu acho que temos que sair da dualidade de ser contra ou não. É importante saber que ninguém é a favor do aborto. Ele só é feito numa situação limite. O Brasil realiza muitos abortos por ano. Somos o segundo país que mais realizamos abortos no mundo. Temos que perceber que, com a legalização, a chance de os números de abortos caírem são muito grandes. |

| Carla Gallo 16:10:12
| | Sérgio, eu tive um período grande de pesquisa, por isso eu criei alguns laços. Os médicos sabiam que eu queria fazer um filme, e confiavam no meu trabalho. As mulheres que entrevistei, a maior parte, faziam parte do projeto "Aborto Legal". Por exemplo, tem uma menina que foi estuprada no caminho para a escola. Ela tinha 13 anos. No Hospital, falaram do nosso filme. Fomos apresentadas e ela aceitou que o filme acompanhasse o processo. |

| Moderador 16:10:22
| | Déia diz: Você sofreu alguma repressão? |

| Moderador 16:10:51
| | João diz: É a sua estréia em longas-metragens. Como foi essa nova experiência? |

| Carla Gallo 16:11:12
| | Edson, é difícil dizer qual foi o momento mais difícil. Todas as situações foram muito complicadas. Em uma das cenas com a menina de 13 anos fiquei bastante emocionada. |

| Carla Gallo 16:12:35
| | Juliana, sim. É tão difícil fazer cinema e ainda mais sobre esse tema, que em muitos momentos eu me perguntava sobre o porquê de fazer aquele filme. Mas hoje eu sei essa resposta. Sei que as pessoas estão vendo o filme com bons olhos. |

| Moderador 16:14:00
| | Tiago diz: Você acredita que Aborto dos Outros pode alertar as pessoas para a questão da legalização do aborto? Essa é a sua intenção? |

| Moderador 16:14:14
| | Cris diz: Você já fez aborto? |

| Carla Gallo 16:14:27
| | Dri, eu acho que a identificação que eu tive com as mulheres foi muito profunda, por isso não teve espaço para julgamentos. Eu acho que quando a gente se coloca no lugar das outras pessoas, o julgamento não existe. Eu queria estar do lado dessas mulheres, queria mostrar o que elas sentiam naquelas situações. Eu queria entendê-las. |

| Carla Gallo 16:16:40
| | Déia, repressão, não. Algumas pessoas foram um pouco agressivas comigo. Alguns religiosos também não aceitaram bem o filme. Eu queria muito ter exibido o filme na PUC no Rio de Janeiro, mas eles não permitiram porque é uma Universidade Católica, e não permitem debate sobre o aborto lá. Eu fiquei bem surpresa com essa postura porque, apesar de ser católica, a PUC é uma Universidade, que é em tese deveria estar aberta para o debate. |

| Moderador 16:16:47
| | Alexandre diz: Como está sendo a repercussão? |

| Carla Gallo 16:18:26
| | João, é muito impressionante fazer um longa. Eu já tinha feito vários documentários para a televisão, mas fazer cinema é muito fascinante. A distribuição é dos momentos mais difíceis, mas eu adorei. Fazer cinema é muito bom. Senti que eu cresci profissional e pessoalmente. Continua |
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